Espetacularização de tragédias por Júlia Mano

Quando a busca por informações transformam catástrofes reais em enredo de novela

Em 1º de maio, o Edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, pegou fogo. Após uma hora em chamas, desabou. Neste ano, também, faz 18 anos do sequestro do Ônibus 174, dez do assassinato de Isabela Nardoni e de Eloá Pimentel, oito de Eliza Samúdio, cinco do incêndio na Boate Kiss e dois da queda do voo da Chapecoense. Esses foram casos em que ocorreram grande divulgação e espetacularização dos grandes veículos de imprensa, inclusive, mudança de programação para que não fossem perdidos detalhes dessas tragédias.

Muitos programas jornalísticos, e até os de entretenimento, em busca por informações e imagens exclusivas acabam espetacularizando tragédias. Vale lembrar do sequestro seguido de assassinato da estudante Eloá Pimentel, 15 anos, na qual todos os canais de televisão aberta modificaram as programações para acompanhar o desenrolar do caso ao vivo, a prática é conhecida como hard news. Foram feitos diversos contatos telefônicos com o sequestrador e — segundo a amiga Nayara, uma das vítimas — Lindemberg se vangloriava ao ver as notícias.

O luto dela não foi respeitado. Em entrevista exclusiva ao programa Fantástico, logo após o fim do sequestro, da morte de Eloá e da prisão de Lindemberg, ela deu depoimento sobre cada detalhe do que ocorreu no apartamento. Assim, vimos feminicídio, agressão à mulher (já estava em vigor a Lei Maria da Penha), e privação dos direitos femininos à vida, pertencer a si mesma, eliminar a desigualdade de gênero, erradicação da violência doméstica e sobre sua sexualidade, ao vivo, totalmente romantizado pela mídia, sendo tratado como “um caso de amor”, como se fosse uma obra machadiana — no qual o sequestrador de Eloá foi colocado no papel de Bentinho, de Dom Casmurro, que sentia ciúmes da companheira por “amar demais”.

Outro caso, semelhante a essa transmissão, foi o do Ônibus 174. Pode-se afirmar que foi a primeira tragédia que foi espetacularizado pela imprensa brasileira, por ser um momento em que as redes televisivas tinham bastante audiência. Essa tragédia foi marcante na história da mídia brasileira porque as transmissões foram feitas de minuto a minuto. Além disso, como não havia isolamento no local, facilmente a imprensa se aproximou do sequestro – inclusive, televisionaram o momento em que o sequestrador Sandro do Nascimento foi posto no camburão da polícia.

Em entrevista ao programa A Liga, o jornalista Che Oliveira afirmou que um dos problemas para o fim que teve — a morte da professora Geísa Gonçalves e de Sandro — foram as transmissões ao vivo e afirma: “Se a imprensa não estivesse aqui, o desfecho do sequestro seria outro”. Esse caso tornou temática de documentário e filme, sem contar as diversas matérias feitas pelos programas televisivos muitos anos após o sequestro do ônibus.

Os casos de Isabela Nardoni, de Eliza Samudio, da queda do voo da Chapecoense e do incêndio da Boate Kiss foram altamente divulgados pela mídia como se fossem uma série de investigação policial, mesmo não havendo transmissões ao vivo dessas tragédias. Muitos jornais divulgaram imagens dos locais, reconstituição do passo a passo dos crimes e dos acidentes e entrevistas, muitas vezes exclusivas, com os familiares. Tudo em busca do furo jornalístico, de ficar à frente de outras redes televisivas e, principalmente, de fazer com que o público ficasse “preso” à televisão, como se cada nova informação divulgada fosse mais um capítulo de uma novela.

Na semana passada, ocorreu a mesma espetacularização com o a queda do edifício em São Paulo. Foi transmitido o áudio de uma das vítimas fatais — na qual ele havia feito ligação pedindo resgate — não somente na televisão, como também no rádio. Filmagens do momento em que o prédio em chamas desabou, depoimento da filha do arquiteto do edifícioe dos moradores, a busca incessante pelo motivo do incêndio, pelo responsável das ocupações e para novas notícias, principalmente, exclusivas.

Todas essas ações praticadas pela imprensa brasileira demonstram a falta de empatia com tragédias, o intuito em se prender o telespectador à televisão — ou até mesmo no desvalorizado rádio — no qual vemos que a descoberta de vítimas fatais de uma catástrofe se torna um furo. Evidente na notícia publicada na Folha de São Paulo sobre o desabamento do Edíficio Wilton Paes de Almeida. Mas, vale lembrar, que há essa predação por novos furos por sempre haver público aguardando mais um capítulo de uma novela da vida real.

* Júlia Mano é barreirense e está no segundo semestre do curso comunicação social na Universidade de Brasília, é integrante do projeto de extensão SOS Imprensa – para o qual esse texto foi produzido.

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