Representatividade e visibilidade dão o tom do Dia da Consciência Negra

Foto//Brasil Escola

Neste ano, o Dia da Consciência Negra é marcado por um simbolismo forte. Em meio a protestos do movimento Vidas Negras Importam — que alcançaram o Distrito Federal, em junho — e a debates com mais destaque sobre questões raciais, também houve impacto nas urnas. As eleições municipais de 2020 resultaram em uma quantidade expressiva de candidatos eleitos que se declararam pretos ou pardos. Um levantamento parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou que, dos mais de 68,5 mil prefeitos e vereadores escolhidos, 42% fazem parte dessa parcela da população. Em 2016, eles eram 39%.

Para Vera Lúcia, 60 anos, advogada e ativista da Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno, o resultado está diretamente ligado à decisão do TSE, que obrigou os partidos a distribuir a verba do fundo eleitoral de acordo com a proporção de negros que concorressem no pleito. “O grande marco de 2020 é essa visibilidade, essa concretude que o movimento negro conseguiu aos olhos da sociedade. É uma das maiores vitórias, que se expressa, inclusive, com algumas conquistas institucionais. No ano em que tivemos eleições municipais, foi uma vitória o TSE e o STF (Supremo Tribunal Federal) terem acolhido a consulta da deputada Benedita da Silva (PT-RJ) para, com isso, implementar uma ação afirmativa que incremente a participação de negros e negras na política”, destaca Vera Lúcia.

Coordenador do Nosso Coletivo Negro, Artur Antonio Araújo, 41, acredita que essa mudança se refletirá com mais força em 2022. “O povo negro entendeu a importância de ter representantes no Poder Legislativo. Isso tem se mostrado de forma tímida no processo eleitoral. Mas acredito que, em 2022, a gente estará mais preparado. Precisamos de pessoas que lutem para termos uma condição melhor de vida”, afirma Artur Antonio.

Desafios

Mesmo com a adoção de políticas públicas afirmativas e com mais representatividade na política, os negros ainda enfrentam desafios para combater o racismo. Nelson Fernando Inocencio da Silva, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB) e um dos brasilienses que ajudaram a dar forma ao movimento negro na capital, acredita que o conservadorismo tem dificultado as conquistas da população negra. “De negativo, a gente tem a reação das alas conservadoras, a postura reacionária de uma ampla parcela da sociedade brasileira que se mostra majoritariamente conservadora. Há uma sabotagem, por exemplo, no sistema de cotas, na medida em que se tem só a autodeclaração e não uma banca de heteroidentificação (racial) em alguns concursos. Isso é péssimo”, critica.

O professor considera que a educação será o caminho para transformar essa realidade de preconceito que ainda prevalece no Distrito Federal e no Brasil. “Uma educação que nos forme como cidadãos e cidadãs comprometidos com o respeito à diferença. Ninguém precisa adorar negros, mas é preciso prevalecer o respeito. Não posso fazer com que alguém goste de mim, mas preciso fazer com que me respeite”, defende Nelson Fernando. “Desejo que a gente tenha a educação como aliada nesse processo”.

Oportunidades de estudo e capacitação fizeram diferença na vida de João Pedro Mourão, 29. Empreendedor e consultor de marketing, ele enfrentou barreiras, como dificuldades raciais e sociais, para alcançar sucesso na carreira. Nascido em Sobradinho, região fora da área central do DF, ele conseguiu se destacar nos cursos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e ter uma porta de entrada no mercado de trabalho. “Minha trajetória não foi fácil. Vivenciei diversas situações em que empresários não quiseram me receber ou em que fui mal-recebido por causa da minha cor de pele”, comenta. “Nosso país é extremamente racista. O que me faz sentir autossuficiente é minha educação. A educação é libertadora”, completa João Pedro.

*Correio Brasiliense

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