Ei Zé! – por Maurício de Aguiar Fernandes

Este é um breve relato da longa história de Zé, filho de uma jovem cozinheira escrava, cujo sorriso, a pele cor de jambo, os olhos de jabuticaba e corpo voluptuoso não escaparam do interesse do senhor daquela propriedade, Fazenda Coqueiral.

Mas voltemos no tempo.

Em 07 novembro de 1831 foi promulgada a Lei Feijó, ou a “lei para Inglês ver” que proibia o tráfico de escravos no Atlântico Sul pretendendo extinguir esta atividade econômica. Mesmo sem efeito prático a promulgação da Lei chamou a atenção do proprietário daquelas terras, Marquês de Coqueiral, que anteviu risco ao seu mais rentável negócio, importação e venda de mão-de-obra escrava.

Logo, além dos cafezais ali se produziam escravos para venda. Os negócios se diversificaram em comércios na capital nacional tocados por seus filhos. Todos mandados estudar no exterior, mas em Londres e não em Paris como a maioria, pois ali estariam suscetíveis às bobagens do neoclassicismo tão em voga na cidade Luz.

Após a morte do Marquês, um deles, o caçula, retorna à Coqueiral e assume os negócios. O cafezal muito antigo já não era tão produtivo e a atividade de venda de escravos incrementada a partir de 1850 com a promulgação da Lei Eusébio estava ameaçada pelos rumores da promulgação da Lei do Ventre Livre. Corria o ano de 1871.

A jovem e belíssima cozinheira estava grávida e em outubro do mesmo ano pariu Zé, um menino forte, que herdaria o sorriso franco da mãe e um par de olhos azuis do pai, além de uma marca de nascença nas costas que lembrava vagamente o mapa do Brasil.

O sorriso fácil lhe renderia muitas amizades e bom trânsito social durante a sua vida, a mancha lhe rendeu o apelido que substituiu seu sobrenome pois era conhecido como Zé Brasil. Já os olhos azuis como o atlântico os libertaram da escravidão, visto que o senhor da Coqueiral não quis registrá-lo com data retroativa como fez com todos os outros rebentos nascidos na propriedade durante um ano após a promulgação da Lei Eusébio, garantindo assim sobrevida àquela atividade comercial.

Zé Brasil cresceu entre a cozinha e o quartinho onde morava com a mãe, no porão da casa grande sem permissão para frequentar os outros ambientes sem não fosse chamado. Tão pouco ia a Senzala repleta de escravos cada vez mais idosos e debilitados. Não gostava daquele lugar e se considerava membro da casa grande. Nesta condição aprendeu contas e a ler, embora tivesse imensa dificuldade de interpretação de textos por mais simples que fossem.

Ao completar dez anos foi mandado ao Rio de Janeiro para trabalhar numa das lojas da família do seu senhor. Fez de tudo, varreu o chão, descarregou mercadorias, controlou estoque e se destacou no balcão, embora muitos clientes atraídos pelo imenso sorriso e pelos olhos azuis se afastassem pela cor de sua pele. Superou todas as adversidades e aos trinta anos deixou o emprego e abriu um pequeno “secos & molhados” no badalado bairro da Tijuca. Sonhava em casar-se com Maria que muito se parecia com sua mãe e concluir a construção de sua casa que já se arrastava por vários anos.

Conheceu Lauro Sodré e Barbosa Lima, além do estudante Jayme Cohen, habilíssimo orador. Juntou-se a este trio no levante popular contra a vacinação imposta por Osvaldo Cruz no combate à varíola. Pregava que a intenção era a eliminação dos pobres, entre outras coisas.

Continuou progredindo, ampliou a loja, abriu um charmoso café e retornou uma única vez à fazenda Coqueiral na ocasião do falecimento de sua mãe quando constatou que não mais pertencia aquele lugar. A sua casa grande estava abandonada, o cafezal se tornara pasto e a senzala, curral para manejo de gado leiteiro e cria e recria de gado de corte.

Mais um tempo se passou. Estava casado, tinha filhos adolescentes, considerava-se rico embora suas lojas mal pagassem as contas. Agora tinha dificuldade em administrá-las e não havia preparado nenhum dos seus filhos para a sucessão. Todos mal sabiam fazer contas e ler sem interpretar o que liam.

Aos quarenta e sete anos faleceu abatido pela gripe espanhola e pela afirmação de que passara pelo surto da varíola sem se vacinar e que o uso da máscara no combate à gripe espanhola era coisa de maricas com medo de um resfriadinho. Deixou a vida e passou para a lista dos mais de 35.000 mortos pelo vírus influenza.

Se foi sem escrever uma linha sequer sobre sua história de lutas e vitórias e enterrado numa cava rasa destinada àqueles que duvidam e desafiam a ciência. Uma placa de madeira com o epitáfio o identificava: “Aqui jaz Zé Brasil, aquele que leu sem compreender, se viu rico sem sê-lo, lutou a batalha dos outros esquecendo-se da sua. Não deixou aos descendentes as armas da cultura e educação para prosperarem”.

Até a próxima!

Este texto é ficção e as personagens principais frutos da imaginação embora faça uso de referências históricas. Vale a pena conferir.

O Marques do Coqueiral, sua prole, seus escravos obviamente não existiram.

Esta fazenda imaginária fica localizada num vale lindíssimo com cachoeiras e montanhas ao sul do hemisfério direito do meu cérebro e remonta às paisagens vividas na infância na Fazenda Amizade, distrito de Herveira, Campina da Lagoa, Paraná. Com a imensa diferença de que lá existiam desde 1972, carteiras assinadas, EPI´s para todos, muito treinamento, participação em resultados e plantio partilhado de alimentos.

24°31’38.4″S 52°47’25.7″W : Coordenadas geográficas da antiga Fazenda Amizade. As curvas de nível que integram várias propriedades rurais foram implantadas a partir de 1972 por Luiz Fernandes e alcançavam várias propriedades lindeiras pertencentes a pequenos sitiantes em prevenção à erosão.

Assim como os fenômenos naturais a história é cíclica e periódica. Quem aprende com ambas se prepara melhor para as atribulações futuras. (Maurício Fernandes – 2021).

Por Maurício de Aguiar

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