“O cão morde a noite”: livro de Emiliano José mergulha nos tempos do terror

Foto//Divulgação

Um mergulho nos tempos do terror. Talvez seja esta a melhor definição de “O cão morde a noite”, décimo quinto livro do jornalista e escritor Emiliano José. São mais de 400 páginas, onde a ditadura militar, nascida em 1964, aparece de corpo inteiro, com prisões, torturas, o arbítrio em estado puro. É publicação da Editora da UFBA e tem prefácio assinado pelo filósofo João Carlos Salles, reitor da Universidade Federal da Bahia. Será lançado virtualmente, durante o Congresso da UFBA, no dia 23, às 16,30hs, com participações de Salles, dos jornalistas Adilson Borges e Mônica Bichara, e do próprio autor.

Escrito em primeira pessoa, foge, no estilo, das outras publicações do escritor, autor de muitas biografias, entre as quais as de Carlos Lamarca, Carlos Marighella, padre Renzo Rossi e a última, sobre Waldir Pires, em dois volumes. É autobiográfico, mas está longe de ser relato exclusivo da vida do autor. Trata dela, mas caminha sempre ao lado de seus camaradas de armas, no combate e nas prisões. Nomes, muitos nomes, codinomes, o leitor encontrará uma infinidade deles na publicação, como diz o reitor no prefácio.

Dá nome às coisas, às virtudes e às covardias. Cinematográfico, faz-nos ver as coisas desfilarem por seus nomes, como se a pudéssemos gritar a qualquer instante e lhes sentir o cheiro ou o sangue. Elétrica a biografia, todo dia nela parece um primeiro de maio de 68, quando o menino viveu seu batismo de fogo, sua conversão militante, em um ato do dia dos trabalhadores. São ainda palavras de João Carlos Salles. Pela primeira vez, ao menos de forma extensa, sem meias palavras, o autor desnuda-se na tortura, é desnudado pela tortura, cruel.

Tão redondo, como se diz em jornalismo, o prefácio do reitor situa o tratamento dado à tortura pelo autor.

“O texto de Emiliano é com um tecido em transe, corpos correndo, corpos sendo afogados, sangue no pulso e na boca. Grito e silêncio. Transe. O trato feito consigo mesmo de nada delatar é como um pacto com a história, e ora se afirma, ora se vê desafiado. No caso de Emiliano, nunca se afrouxa. Morto, vivo, desmaiado, acordado – transe. Como tudo tem nome, tem data, no texto cinematográfico de Emiliano!”

“É como se ele pudesse nos reconstituir cada cena e cada personagem chamando-as pelo nome. Em alguns momentos, tão intensa a trama e a narrativa que chegamos a sentir-lhes o cheiro. Esse livro, então, assim meio em transe, como um filho de cinema novo, como um Corisco que não se entrega, é um canto que marca muros e mentes, assim como um dia, em Salvador (e em parte, para protegê-lo, tornando pública sua prisão), apareceu a pichação ‘Liberdade para Emiliano’.”

Há uma espécie de memória do cárcere, a Galeria F e seus personagens na Penitenciária Lemos Brito. E há a presença constante de um personagem, de um companheiro, amigo, a quem ele homenageia logo ao sair da prisão, registrando o filho com o mesmo nome: Theodomiro. Foi o mais famoso prisioneiro político do País, ao ser condenado à morte em 1971, pena depois comutada para perpétua, até chegar, durante os nove anos de prisão, a coisa de 16 anos. Antes da anistia, fugiu. Theodomiro Romeiro dos Santos vive hoje em Recife. Encerra o livro com ele.

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